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Dor pélvica crônica

Notícias - 16 de Junho de 2017

A dor pélvica crônica (DCP) é definida como uma dor cíclica ou não cíclica, com localização na pelve e duração de ao menos seis meses. Pacientes portadoras de dor pélvica crônica podem apresentar um quadro clínico chamado de síndrome de dor pélvica crônica (SDPC), caracterizado por, além da dor propriamente dita, alterações de cunho psicológico e social, tais como depressão e prejuízo nas relações familiares e de trabalho, com diversos tratamentos frustrados. Pacientes portadoras de SDPC apresentam, invariavelmente, diversos exames de ultrassonografia, videolaparoscopias diagnósticas e cirurgias abdominais abertas, em que não se encontra justificativa para dor, sendo, muitas vezes, as pacientes tachadas de hipocondríacas e histéricas, tendo sua autoestima rebaixada.

Por vezes a própria paciente questiona se sua dor não tem fundo psicogênico, quando, na maior parte das vezes, trata-se realmente de um quadro orgânico. A DPC é responsável por aproximadamente 10 % das consultas ao ginecologista, 40% das videolaparoscopias e 10 a 15% das histerectomias (retirada do útero). Estima-se que 25% das pacientes com DCP ficam de cama ao menos um dia por mês, 60% delas deixam de exercer suas atividades habituais por um ou mais dias por mês, e 90% sentem dor no ato sexual. Existem algumas explicações para a origem da DCP, dentre elas, sucintamente, expomos algumas: dor neuropática: se dá por hipersensibilidade por estímulo contínuo sob as terminações nervosas; dor referida: a dor visceral passa a “refletir” estímulos para a inervação somática, percebendo a paciente a dor como de origem superficial, desenvolvendo pontos desencadeantes (gatilho) na musculatura superficial e parede abdominal; modulação central da dor: alguns neurotransmissores liberados em situações específicas, como por exemplo em quadros depressivos, podem aumentar a percepção da dor e de sua intensidade em nível cerebral.

O diagnóstico diferencial da DPC é vasto, pois a inervação pélvica é compartilhada pelos órgãos reprodutivos, intestino, bexiga e uretra. Dentre as causas ginecológicas as mais incidentes são a endometriose e as aderências pélvicas, seguidas por dismenorreia primária, causas inflamatórias, prolapsos genitais, tumorais, corpos estranhos, adenomiose e síndrome da congestão pélvica. Mas em um número significativo de casos não se chega a um diagnóstico definitivo da causa da dor. Na avaliação da paciente com DPC e SDPC uma história detalhada ajudará a definir a investigação complementar que poderá ser fundamental para a elucidação do diagnóstico. Deve dar-se atenção para o tempo de duração dos sintomas, localização e irradiação da dor, fatores agravantes e de alívio, sintomas associados como náuseas e sangramentos, entre outros, uso de medicações, antecedentes ginecológicos e cirúrgicos, e história sexual com atenção especial a episódios de abuso sexual.

O exame físico-ginecológico da paciente não foge do habitual, mas, muitas vezes, é dificultado pela própria dor. Faz-se importante também a avaliação urológica, proctológica e ortopédica. Quanto aos exames complementares, destacamos inicialmente o hemograma, teste de gravidez, exame de urina, cultura vaginal e endocervical para clamídia, gonococo e micoplasma, CA 125, ultrassonografia, ressonância magnética, videohisteroscopia, e videolaparoscopia, em grau crescente de complexidade. O tratamento dependerá da etiologia da dor, mas genericamente é dividido em clínico e cirúrgico.

O tratamento clínico abrange o uso de medicações tais como antiinflamatórios, opioides,  anticoncepcionais, progesterona, análogos do GnRH, antidepressivos e anticonvulsivantes, e também a infiltração de pontos gatilho e fisioterapia. No tratamento cirúrgico pode-se lançar mão da lise de aderências, apendicectomia, neurectomia pré-sacra, excisão de endometriose, histerectomia, dentre outras opções, nem todas com aceitação acadêmica universal.

A paciente com DPC e SDPC necessita de avaliação e tratamento multidisciplinar, envolvendo, além do ginecologista, psicólogos, urologistas, proctologistas, ortopedistas, especialistas em dor, e um olhar cauteloso e atento por parte da equipe, que deve disponibilizar tempo e atenção especial para essa paciente, a qual sofre de um mal extremamente limitante, por vezes de causa inespecífica, mas que merece, no mínimo, ter melhor qualidade de vida.

Entrevista do Dr. Leonardo Fernandes ao Jornal Folha do Sul

Fonte -> Jornal folha do Sul

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